Friedrich Nietzsche



Friedrich Nietzsche (1844–1900) 

Somos apenas meros leitores e tentamos compreender o seu pensamento crítico que desafiou as bases da moralidade cristã, da religião e da tradição filosófica ocidental, moldando profundamente o existencialismo e o pós-modernismo. Complexo e brilhante!  Em 1990 Friedrich Nietzsche era expressamente mencionado e estudado no ensino secundário em Portugal. O cenário curricular era completamente diferente do atual. Até meados da década de 1990, o ensino da Filosofia nas escolas portuguesas regia-se por um modelo focado na História da Filosofia e nos Grandes Autores, ao contrário do atual modelo temático baseado em problemas. Foi um dos filósofos alemães mais influentes e provocadores do século XIX. 
Nietzsche surgia de forma estruturada no programa em vigor de 1990 .Em 1990, vigorava o histórico programa implementado após a Reforma do Ensino Secundário. Na altura, a Filosofia estendia-se até ao 12.º ano. No programa desse ano terminal, existia um bloco inteiramente dedicado às grandes correntes do pensamento contemporâneo e às "Filosofias da Suspeita".O bloco dos Mestres da Suspeita: Nietzsche partilhava o protagonismo curricular com Karl Marx e Sigmund Freud. O que se estudava era que os alunos analisavam criticamente a desconstrução da moral ocidental feita por Nietzsche, o conceito da "morte de Deus" e a sua crítica aos valores metafísicos tradicionais.A transição na década de 1990Mesmo quando o sistema de ensino começou a mudar na década de 1990, Nietzsche manteve-se no currículo oficial de transição:A reforma de 1995: Introduziu a leitura integral obrigatória de obras de várias épocas no 12.º ano.
Conceitos Chave
  • Niilismo: A crença de que a vida não possui um significado ou valor inerente. Nietzsche alertou para o surgimento do niilismo devido à perda de força da religião na sociedade moderna. 
  • "Deus está morto": Uma das suas frases mais famosas. Não é uma celebração, mas sim uma observação cultural de que a sociedade ocidental já não dependia de Deus como base para a sua moral e verdade.  
  • Vontade de Potência: A força motriz fundamental dos seres humanos. É a ambição de superação, crescimento, autodomínio e canalização da energia criativa, indo além da mera sobrevivência.  
  • O Além-do-Homem (Übermensch): O ideal de um indivíduo que supera os limites da moral tradicional. Esta pessoa cria os seus próprios valores e dá sentido à sua vida sem recorrer a ilusões metafísicas.  
  • Eterno Retorno: Um teste mental que propõe que a vida se repete infinitamente da mesma forma. Viver de maneira a desejar que cada momento se repita eternamente é o derradeiro sinal de afirmação da vida (Amor Fati).  
  • Moral de Senhores vs. Moral de Escravos: A distinção entre uma moral que valoriza a força, o orgulho e a excelência (Senhores) e uma moral nascida do ressentimento, que valoriza a humildade, a simpatia e a igualdade (Escravos)

Foi a sua irmã, Elisabeth Förster-Nietzsche, que alterou, falsificou e reorganizou os textos do filósofo. Ela aproveitou-se do colapso mental de Friedrich Nietzsche em 1889 e da sua posterior morte em 1900 para assumir o controlo total do seu espólio literário, fundando o Arquivo Nietzsche
Elisabeth era uma nacionalista convicta e antissemita radical — o oposto de Nietzsche, que detestava o nacionalismo alemão e criticava publicamente o antissemitismo. 
A manipulação dos textos ocorreu de várias formas específicas:
1. A criação de A Vontade de Poder
Nietzsche nunca publicou um livro com este título. Ele tinha apenas cadernos cheios de notas, rascunhos e aforismos soltos. Elisabeth reuniu estes fragmentos, cortou passagens cruciais e reorganizou-os para fazer parecer que o irmão defendia a supremacia racial, o militarismo e o autoritarismo. O livro foi vendido como a "obra-prima" póstuma do filósofo, mas era, na verdade, uma montagem ideológica da irmã. 
2. Censura e adulteração de cartas
Para proteger a sua própria reputação e moldar a imagem pública do irmão, Elisabeth destruiu dezenas de cartas originais. Noutras, rasurou palavras e reescreveu trechos inteiros. Num lote de 505 cartas que publicou em 1909, investigadores descobriram mais tarde que apenas 60 eram totalmente autênticas e várias dezenas tinham sido inventadas por ela. Ela removeu, por exemplo, os insultos que Nietzsche dirigia ao seu marido, Bernhard Förster, um conhecido agitador antissemita. 
3. Eliminação de críticas ao antissemitismo 
Elisabeth eliminou ativamente frases em que Nietzsche elogiava o intelecto judaico ou condenava o preconceito racial. Na edição que preparou de Para Além do Bem e do Mal, ela removeu a frase: "Os antissemitas não perdoam os judeus pelo facto de estes terem 'espírito'". Também cortou o aviso do irmão para "não ter nada a ver com quem participe na fraude racial"
O impacto histórico e a recuperação dos textos
Esta fraude teve consequências históricas graves. Na década de 1930, já idosa, Elisabeth filiou-se no partido nazi e apresentou o arquivo adulterado do irmão a Adolf Hitler. O regime nazi adotou com entusiasmo esta versão manipulada de Nietzsche, transformando-o, injustamente, num dos "filósofos oficiais" do Terceiro Reich. 
Os originais foram recuperados?
Sim. A partir da década de 1950, filólogos e investigadores (como Giorgio Colli e Mazzino Montinari) realizaram um trabalho minucioso de restauração. Eles compararam os livros publicados pela irmã com os manuscritos originais de Nietzsche. Graças a esse esforço, as edições modernas de Nietzsche estão totalmente limpas das interferências da irmã, devolvendo ao leitor o pensamento original, cosmopolita e anti-dogmático do filósofo.

O Impacto no Século XX
Já estamos no Século XXI, mas Nietzsche teve um impacto gigantesco no Século XX. Embora tenha morrido exatamente no ano de 1900 (após passar os últimos 11 anos de sua vida em um estado de colapso mental profundo), as suas ideias pareciam ter sido escritas sob medida para as crises, traumas e transformações que o mundo viveu nos 50 anos seguintes.

O próprio Nietzsche percebia isso. Ele se autodenominava um "filósofo pós-tumo" e escreveu que a sua época ainda não havia chegado, prevendo que o seu nome seria associado a crises sem precedentes no futuro. E ele estava certo.

Onde a influência dele pesou mais:

  • A "Morte de Deus" e o Existencialismo: Quando Nietzsche declarou que "Deus está morto", ele não estava celebrando, mas alertando sobre o colapso da moral tradicional e o surgimento do niilismo (a perda de sentido da vida). Filosofias existencialistas da primeira metade do século XX, lideradas por figuras como Jean-Paul Sartre e Albert Camus, nasceram diretamente dessa necessidade de criar um novo significado em um mundo que parecia ter perdido o seu norte moral após as duas guerras mundiais.

  • A Psicologia Profunda: Sigmund Freud e Carl Jung foram profundamente influenciados por Nietzsche. Ideias dele sobre o inconsciente, a repressão dos instintos e as forças ocultas que guiam o comportamento humano pavimentaram o caminho para a psicanálise. Freud chegou a dizer que Nietzsche tinha um conhecimento de si mesmo mais intuitivo e penetrante do que qualquer homem que ele já tivesse lido.

  • Artes e Literatura: Movimentos de vanguarda do início do século — como o Expressionismo alemão e o Surrealismo — beberam na fonte de suas ideias sobre a quebra de regras formais e a valorização das forças irracionais e criativas da mente humana (o que ele chamava de o lado dionisíaco). Escritores fundamentais como Thomas Mann, Franz Kafka e Hermann Hesse foram fortemente moldados por sua leitura de Nietzsche.

O uso político e a distorção

Não dá para falar da influência de Nietzsche na primeira metade do século XX sem tocar em um ponto doloroso: o Nazismo.

O regime de Adolf Hitler apropriou-se e distorceu severamente conceitos de Nietzsche — como o Übermensch (o Além-do-Homem ou Super-homem) e a Vontade de Potência — para justificar teorias de supremacia racial e antissemitismo.

A falsificação das obras: Essa distorção foi facilitada pela própria irmã do filósofo, Elisabeth Förster-Nietzsche, que era uma fervorosa nacionalista alemã e antissemita. Após a morte do irmão, ela editou e reorganizou os escritos inéditos dele para que parecessem apoiar a ideologia fascista, criando o livro A Vontade de Potência.

A verdade é que Nietzsche detestava o nacionalismo alemão e o antissemitismo, tendo rompido com vários amigos (e com a própria irmã) em vida por causa disso. Foi só na segunda metade do século XX que historiadores e filósofos conseguiram limpar o nome de Nietzsche dessas manipulações e restaurar o real significado de sua obra.


O Nihiilismo

O Nihil uma palavra alemã que significa "Nada". O primeiro filósofo a referir o termo foi Friedrich Heinrich Jacobi (1799). Jacobi usou a palavra Nihilismus (em alemão) de forma negativa. Ele escreveu uma carta aberta ao filósofo Johann Fichte criticando o Idealismo (corrente filosófica da época).

Para Jacobi, se a filosofia tentasse explicar tudo apenas através da razão humana e da mente, ela acabaria destruindo a realidade do mundo exterior e a existência de Deus. Ele argumentava que o racionalismo exagerado esvaziava a vida de sentido real, reduzindo tudo ao "nada" (nihil). Ou seja, o termo nasceu como uma crítica e uma injúria filosófica, não como uma corrente que alguém defendia.

A situação atual do Trump, do Xi xi Ping, do Putin, do vazio de liderença da Europa... A falta de propósito

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